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Simplesmente Feliz
Por: Lucas Procópio
28/03/2009
''Sally Hawkins tem, sem sombra de dúvida, a melhor construção de personagem do ano''
O título nacional escolhido para o filme inglês Happy-Go-Lucky não poderia ter sido mais adequado e coerente.
Poppy é uma professora de jardim de infância, já na casa dos trinta, que não sabe dirigir. Ela divide uma apartamento com sua melhor amiga e eventualmente termina a noite bêbada. E, detalhe, ela jamais tem outro estado de humor senão o feliz histérico.
Simplesmente Feliz poderia facilmente cair no lugar comum da comédia, talvez romântica, em que a personagem se encontra em crise existencial e o conflito seria justamente a decisão de mudança.
Ok, não espere nada disso até mesmo porque trata-se do novo filme de Mike Leigh, diretor conhecido por seus dramas pesados que focam a psique do personagem.
Apesar de colorido, rápido e engraçado, Simplesmente Feliz não deixa de ser familiar à filmografia do diretor, pois é justamente essa a proposta: a construção da personalidade de Poppy e as leituras que podem ser feitas a partir disso.
No primeiro ato o roteiro se dedica a familiarizar o público com a professora trintona. Logo na primeira cena, quando a bicicleta de Poppy é roubada, o conflito se instala - essa é a engrenagem, o que mudará toda a sina da protagonista - e ao mesmo tempo esse acontecimento nos mostra o que diferencia ela dos demais: quando se dá conta de que a bicicleta não está mais lá, Poppy apenas lamenta não ter tido a oportunidade de se despedir.
Então seguimos Poppy por sua rotina: balada com as amigas, chegar bêbada em casa, acordar a tempo de preparar a atividade para aula, ir pro trabalho... ou seja, seu dia é típico, igual ao de tantas outras mulheres, mas o que a torna tão singular não são os acontecimentos e sim a maneira como ela se relaciona com eles. Poppy, afinal, é única.
Em determinado momento, a professora propõe aos alunos que coloquem na cabeça sacolas de mercado, decoradas como a cabeça de um pássaro, e acreditem que estão voando - aqui podemos perceber o quão alheia a realidade ela vive e que acaba contagiando todos a sua volta.
Depois desse divertido set-up, chega o segundo ato e aí Leigh começa um estudo mais profundo sobre Poppy. Ela é constantemente confrontada: o aluno que agride os colegas de classe, o mendigo, sua irmã que é justamente o seu oposto e finalmente o professor da auto-escola.
Preconceituoso, extremamente mau-humorado e de um nervosismo tão gratuito que assusta, lá está Scott, o arquiinimigo da nossa heroína. A relação entre os dois é bem mais complexa que isso porém, pois Poppy não consegue ser rude com ninguém e acaba aceitando a hostilidade com educação ao mesmo tempo que se vê intrigada com aquele homem tão diferente dela e tão solitário.
Leigh constrói assim, um filme que inicialmente é simples até demais, uma comédia leve que aos poucos vai se revelando um estudo completo e pertinente da felicidade e dos fatores necessários para que ela exista.
A direção sofre um pouco para acertar o tom e existe até uma falta de originalidade, mas percebemos ao longo do tempo que essa imparcialidade se adequa perfeitamente ao roteiro. A naturalidade e a escolha por não manipular muito a narrativa é uma prova de confiança no texto e nos atores.
Sally Hawkins tem, sem sombra de dúvida, a melhor construção de personagem do ano. Vencedora do prêmio de melhor atriz em Berlim e de um Globo de Ouro, foi totalmente esquecida pelo Oscar que optou indicar Angelina Jolie.
Hawkins tem, enfim, a atuação de uma carreira, um trabalho de gênio que não bastasse ser maravilhoso, ainda nota-se ter sido complicadíssimo pela quantidade de camadas e nuances da personagem que jamais poderia parecer artificial. A atriz constrói Poppy durante quase duas horas para depois descontruir tudo aquilo sem sair dos limites da personagem ou perder sua essência.
Tão esquecido quanto ela é o magnífico Eddie Marsan que interpreta Scott. Ele mergulha no personagem, some por completo, e entrega Scott com toda sua amargura e solidão.
Um personagem que nas mãos de qualquer outro poderia cair no ridículo fácil ou ainda na caricatura, ganha de Marsan uma complexidade ímpar e um sofrimento exposto de maneira tão brilhante e chocante, que torna o filme, já ótimo pelo roteiro e direção, uma obra muito próxima da excelência.
(Ótimo)